[S.C.1] Mortis


Sofia.
Já não te escrevo à muito tempo. Como tens passado?
Sabes, hoje vi um corvo. Uma criatura negra, mas de um negro que fazia lembrar as trevas. As suas penas afiadas pelo vento de qualquer hora do dia. Os seus olhos pareciam dois campos de batalha, onde dois países lutavam por um pedaço de terra e erguiam ali um clima intenso avermelhado. Admirei-o de longe e esperei que reagisse. Pus-me a pensar na quantidade de carcaças que já consumiu assim como na quantidade de almas que já habitaram essas carcaças e esses corpos sem finalidade. Lembrei-me de ti. Sorri, e continuei a observar a ave que se estendia diante de mim. Ela olhou-me, talvez para analisar se eu estava morto, e ficou ali uns dez segundos. Segundos esses que pareceram minutos, até que ele levantara voou. Fiquei estupefacto com o que presenciei, e imaginei-me a voar com ele. A imensidão de pós-acontecimentos que aquele animal já testemunhou, deixam-me ansioso.
Já viste? A magnificência de um corvo é algo precioso. E se realmente Apolo castigou este animal, eu agradeço-lhe do fundo do meu coração.
Eu invejo a vida desta ave, e sonho em acabar por ser bicotado por um. Mas aquilo que eu sonho realmente, é ser tomado por ti, Sofia. Quando é que chegas?

Stefano

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