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O gosto que tenho em chegar a casa depois da caminhada acostumada. A brisa de verão já entra pela moradia a dentro, tomando conta de todo o espaço. É aconchegante, porém, não me sinto confortável o suficiente. Nada se equipara ao inverno. A geada que se forma por entre as brechas da porta e o suspiro que se torna visível a olho nu, são as coisas que mais me mantêm estável de consciência. Talvez por puro acaso. Pensemos assim que é melhor. Porém, as panquecas da minha mãe nesta altura do ano são as melhores. Farinha, ovos, leite, uma dose razoável de açúcar e o segredo das raspas de limão que refrescam sempre o clima. Claro que lhe peço para ser mãos-largas ao açúcar. Que seria eu sem ele? No final, ajudo a guardar os ingredientes e fico lá fora a observar o final do dia.
Já só espero a chegada dele. Um dia vou conseguir esconder a minha áurea e deixá-lo perdido. Quem me dera. Ele só espera mais de mim e eu deixo-me levar. É inevitável. Talvez lhe dê um nome. Sendo o tempo relativo, não sei muito bem o que esperar dele no futuro. Praeteritum seja, como li uma vez num dos livros do meu padrasto.
Pensei nomeá-lo ao final do dia e assim o fiz, sem grandes problemas. Não me senti muito bem por meros segundos. Congelei. Pensei na vida que tinha pela frente, mas não vi nada. Apenas existi ali, naquele lugar e naquele instante. O sufoco que senti fez acelerar aquilo que me mantinha vivo, pensei que ia morrer ali. Voltei. Sentei-me na cama do quarto e olhei lá para fora. Ali estava, ao longe a olhar para mim. Só queria que tudo acabasse e não passasse de um pesadelo, como aqueles que costumo ter à noite. Não sei se a minha decisão foi a mais sábia, mas uma coisa é certa. Por cada passo que dá eu perco-me, e ele encontra o caminho mais facilmente.
No meio deste caos vou mantendo a lucidez, e quem sabe ele se perca um dia para eu encontrar a consciência que tenho selada dentro de mim. O tempo passa e eu fico. Tornei-me prisioneiro de mim, e deixei a existência renegar-me. Assim fico, parado em frente ao Praeteritum na esperança de um dia voltar a sentir.
Deitei-me, apaguei a luz da mesinha de cabeceira e deixei-o entrar. Até amanhã.
Bruninho
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